Eu passei 28 anos dentro do cristianismo e uma coisa que todos afirmavam de maneira unânime, era que ser cristão era algo muito difícil. Suportar as provações, as dificuldades, o mundo e suas paixões era algo que requeria muita espiritualidade. O jejum e a oração deveriam ser feitos continuamente para que fosse possível ao crente, obter poder espiritual. E era essa busca de espiritualidade que acabava por ser demasiadamente difícil de se obter, pois no mundo moderno, quem tem tempo para parar e orar? Ou quem tem condições de se fazer um jejum correto? E por quanto tempo deve durar o jejum?
Dessa forma, ser um servo de Deus era algo considerado quase que divino. E só se reconhecia alguém como um verdadeiro servo de Deus, se esse alguém possuísse essa “espiritualidade”. Quase nunca se ouvia os pastores exortando o povo a praticar as mitsvot (leis de Deus, mandamentos). Quando se ouvia falar em “mandamentos de Deus”, isso se referia ao cumprimento daquilo que Jesus ordenou que os cristãos fizessem: amar a Deus e ao próximo. Só que amar a Deus implica cumprir a Torá (mandamentos dados por intermédio de Moisés), mas para a cristandade significava na prática, orar, jejuar, cantar hinos, dedicar-se à igreja, ir aos cultos, exercer os “dons espirituais”, e principalmente dar o dízimo. Amar o próximo era sinônimo de apertar as mãos uns dos outros no momento de louvor (coisa que eu detestava, tamanha a hipocrisia), cumprimentar-se com um sorriso e às vezes, para uns poucos, fazer uma visita a alguém doente ou “desviado” de Deus.
Em minha igreja particularmente, até a cesta básica era racionada e era feita uma seleção dos itens que poderiam ou não entrar na cesta básica. De fato, era uma cesta básica bem básica! Chegou ao ponto em que um diácono disse que “pó de café não era coisa de cesta básica”. Mas tenho certeza de que se fosse ele o receptor da cesta, ele iria gostar de tomar um cafezinho...
O cristianismo é uma religião individual. Cada um deve procurar viver sua vida com Deus e esquecer a vida do próximo. Cada um por si e Deus por todos! O mais importante é eu dar o meu dízimo e “fazer o meu”, esquecendo da vida do outro. Perde-se aí o conceito de “corpo” que os cristãos tanto pregam, afirmando que eles são o “corpo” do Cristo e que o Cristo é a cabeça. E é nessa individualidade que a idéia de grupo (ou “corpo” na linguagem cristã) se perde.
De um modo geral, o dia-a-dia de um cristão não exige dele muita demonstração de dedicação a Deus. Basta que ele não dê escândalo, não beba, não fume, não xingue, pregue a palavra de Jesus e não olhe para mulheres (ou homens) na rua. Isto é praticamente 70% do que um cristão deve fazer. O resto é na igreja e
em casa. Agora vejamos a vida de um judeu.
Ele acorda pela manhã e já lembra de dar uma bênção. Se arruma, faz o ritual de lavagem das mãos dando uma bênção própria para isso. Coloca o talit após uma bênção apropriada para tal. Recita o Shemá, mas antes, recita uma longa bênção antes e duas depois de recitar o Shema. Ao comer, o judeu dá uma bênção; ao beber o judeu dá uma bênção também. O ato de se abençoar está intrínseco na vida do judeu. Existe uma bênção para cada coisa que aconteça: ao ver um arco-íris, ao comer uma fruta da estação, ao beber água, vinho suco de uva ou qualquer bebida alcoólica; ao sair do banheiro ou até mesmo ver pessoas ou criaturas esquisitas!! Na hora do almoço ou da janta o judeu dá uma bênção, pois o sentido da bênção sobre as refeições é obter a permissão de Deus para podermos fazer uso daquilo que é de Deus, pois o mundo pertence a Ele. Só após a bênção é que temos permissão de fazer uso do alimento.
Ainda pela manhã ele faz o serviço de Amidá, que possui várias bênçãos. À tarde, é o serviço de Minchá, onde se faz a Amidá novamente. À noite também realiza-se a Amidá e recita-se o Shemá, agora com duas bênçãos antes e duas depois. Por dia, o judeu recita no mínimo, 100 bênçãos. Isso sem falar das bênçãos necessárias a ocasiões especiais, como dias de festa.
Até os muçulmanos possuem leis rigorosas em seu dia-a-dia. Por dia, o muçulmano deve orar cinco vezes. É raro encontrar um cristão que ore pelo menos duas vezes ao dia. Antes da leitura do alcorão é realizada a lavagem das mãos em sinal de profundo respeito. Já o cristão trata a sua bíblia como se fosse um livro qualquer. No domingo, ele chega a tirar a poeira dela para levá-la à igreja. Sinal de que nem a lê durante a semana.
No Shabat (sábado) o judeu pára todo trabalho. Na sexta-feira o muçulmano pára todo o trabalho também. E o cristão? O que faz no domingo? Tudo!! Dependendo do trabalho é até o melhor dia para se trabalhar. Das três religiões, o cristianismo é a mais relaxada no diz respeito à guarda dos dias sagrados.
A todo momento, o judeu tem a responsabilidade de se lembrar de cumprir a Torá. Não é preciso que ele “sinta vontade” de guardar o Shabat. Ele tem que guardar o Shabat. Não é preciso que ele “sinta vontade” de não comer carne de porco. Ele tem que deixar de comer carne de porco. Ao contrário do cristianismo, o judaísmo não prega que devemos buscar sensações espirituais para nos aproximarmos de Deus. Não é preciso chorar, se emocionar, ou “sentir o espírito de Deus neste lugar” para se alcançar a comunhão com Deus, pois a comunhão com o Eterno acontece por meio do cumprimento dos mandamentos da Torá. É a obediência que nos une a Deus.
Se por ventura nos emocionarmos ou chorarmos diante de um cântico ou uma bênção, isso será apenas uma expressão exterior de um sentimento, mas não uma prerrogativa para se alcançar a espiritualidade e nem será uma demonstração de que a pessoa que chora é espiritual. O compromisso do judeu é com os mandamentos de seu Pai Eterno. O cristão não possui este compromisso, pois para eles, Jesus aboliu a lei de Moshê (Moisés).
O cristianismo ensina que a comunhão com Deus só é possível através de Jesus. Só se chega a Deus através de Jesus. Só Jesus é o caminho a Deus. E o que dizer de Davi, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, que não conheceram Jesus? Será que eles não tinham comunhão com Deus? Não foram “salvos”? Para nós judeus, a comunhão com Deus vem do cumprimento sincero e devoto dos mandamentos da Torá. Para o cristianismo, o perdão dos pecados só vem mediante o sangue do Cristo, um homem-deus. Para o judeu, o perdão dos pecados só vem através do arrependimento e reparação do erro até onde seja possível. É inadmissível que Deus tenha se encarnado e morrido numa cruz, pois o Deus Eterno não morre.
É inadmissível também, que o Eterno aceite um sacrifício humano para perdão dos pecados. Mais ainda, é inadmissível que Deus aceite que um justo (Jesus) morra no lugar de um injusto:
“...não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” (Êx. 23:7).
A facilidade é ainda maior quando percebemos que no cristianismo, a lei de Moshê é descartada, pois alguém (Jesus) já a cumpriu em lugar de todos, ou seja, agora ta liberado. Pode-se comer carne de porco, pois Jesus já deixou de comê-la por todos. Acho que poderíamos também, adulterar, matar, cobiçar, pois ele já deixou de fazer tudo isso por todos!! A antinomia (ausênciaa de lei) no cristianismo é profunda. Eles desprezam e desdenham a lei do Eterno dada por intermédio de Moshê. Esquecem que em Is. 40:8 diz que a palavra de Deus (incluindo a Torá) subsiste ETERNAMENTE! Como Ele próprio pode tê-la abolido?
A visão cristã é a de que a lei de Moshê é demasiadamente pesada para se cumprir. Ninguém é capaz de cumpri-la integralmente, pois são muitos mandamentos a serem observados. Vale lembrar o seguinte:
A Torá possui 613 mandamentos. Dentre estes mandamentos, existem aqueles que são dirigidos a reis, sacerdotes, levitas, mulheres, homens, jovens, juízes, oficiais e etc. Existem leis que são restritas às mulheres e por isso os homens não as cumprem. Só aí o número de mandamentos já se reduz. As leis para os reis não são para os sacerdotes. As leis dos sacerdotes não são para os homens comuns do povo e assim por diante. Logo, ainda que quiséssemos, não poderíamos cumprir todas e cada uma das leis da Torá, pois muitas destas leis se dirigem a categorias de pessoas diferentes. Além do mais, existe a maneira correta de se aplicar e praticar tais leis, e isto só pode ser conhecido através de uma obra chamada Talmud, que é a lei oral. É no Talmud que vemos como as leis mosaicas se desmembram em outras leis e como elas devem ser praticadas. O cristianismo rejeita completamente a autoridade do Talmud.
Portanto, se compararmos o cristianismo e o judaísmo no que diz respeito à prática de fé, veremos que ser judeu é muito mais difícil que ser cristão, e que na verdade ser cristão é fácil, pois não existe a responsabilidade de se cumprir a lei de Moisés da maneira como deve ser cumprida. Antigamente ainda víamos cristãos orando antes de almoçar ou jantar, mas e hoje? Antigamente os filhos pediam a bênção aos pais, mas e hoje? Muitos acham esta prática obsoleta e não mais fomentam esta idéia. Se os bons costumes foram abandonados mesmo que ninguém tenha dito que eles deveriam ser deixados de lado, imagine a lei de Moisés, da qual é ensinado que é uma maldição e que foi abolida!!! Hoje eu vejo que na verdade, o cristianismo é muito fácil de ser vivido.