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O Haiti e o Amor Cristão

 

(As versões bíblicas aqui utilizadas são a Almeida Corrigida Fiel e a Bíblia Hebraica, da Editora Sêfer).
 
 
 
 
 

Pergunte a um cristão, qual é a essência de sua religião, o cristianismo. Ele com certeza responderá que é o amor. Um amor que tem como base, o exemplo de Jesus Cristo, que deu sua vida por todos na cruz do Calvário.

Mas que tipo de amor é esse? Será que é aquele praticado pela Santa Inquisição? Ou será aquele demonstrado por Calvino quando mandou matar Miguel Servet, por não acreditar na trindade? Ah, talvez seja aquele demonstrado por Martinho Lutero, que odiava mortalmente os judeus por causa de seu deicídio (assassinato de Deus) ao crucificarem Jesus.

A realidade é que o amor cristão é algo bem complexo de se entender, pois o amor tem como base a compaixão, a tolerância, a justiça, o olhar com carinho e bom senso. Coisas que muitas vezes os cristãos não demonstram. O mestre deles, Jesus, disse certa vez: “Aquilo que quereis que os homens vos façam, fazeis voz também”. Também disse: “Não julgueis para que não sejais julgados”. Mas o que se vê no seio do cristianismo, são pessoas egoístas, voltadas para si mesmas, que raramente se colocam no lugar do próximo para sentirem suas dores.

A busca de espiritualidade é algo individual no cristianismo. Cada um deve buscar a Deus no íntimo de seu lar. O que importa é que eu esteja bem com Deus, não importando se o meu irmão está em pecado, pois ele próprio dará conta de si. Ao contrário do pensamento judaico que diz que “o povo de Israel é um”. No judaísmo, se um erra todos erram, pois Israel é um! Se um acerta, todos acertam, pois todo Israel é um! No judaísmo, vale o ditado “quando a casa do meu vizinho está em chamas, a minha corre perigo”, mas no cristianismo, vemos totalmente o contrário. É cada um por si e Deus por todos!

Falo isso com conhecimento de causa, pois passei 28 anos de minha vida no cristianismo protestante. Sei bem como as coisas funcionam. Certa igreja aprovou em sessão extraordinária, que compraria equipamentos como microfones, cabeamento elétrico e outras coisas, no valor de 1500 reais, parcelado em 3 vezes. Todos aprovaram. Porém, quando foram votar a doação de 300 reais para ajudar uma irmã com as despesas do funeral de seu marido, a membresia rejeitou a proposta de se doar o dinheiro do cofre da igreja, preferindo fazer um levantamento de ofertas naquele domingo à noite. O que faltasse para atingir os 300 reais, aí sim seria completado pela igreja. Interessante, né?

Bens materiais possuem mais valor que bens espirituais ou o ser humano. A igreja poderia gastar 500 reais por mês, durante 3 meses, para comprar certos utensílios, mas não poderia gastar 300 reais para ajudar uma de suas irmãs. Que amor crístico...

E é esse amor cristão que tem se revelado de maneira surpreendente depois que houve o terremoto no Haiti. Vários cristãos atribuem este terremoto à idolatria do povo haitiano. Para estes crentes, o terremoto não foi nada mais que um julgamento de Deus ao povo dedicado ao vodu e feitiçaria. Também dizem que a pobreza deste povo é um castigo de Deus. Ignoram por completo as questões geográficas e políticas do problema.

Um destes cristãos é bem conhecido no círculo evangélico: Julio Severo. Possui um blog na internet onde destila ódio a diversos tipos de pessoas. Entre seus preferidos estão os homossexuais. Após o terremoto no Haiti, muitos cristãos começaram a falar o que o Julio comentou em seu blog: Foi tudo juízo divino. O texto na íntegra pode ser lido em:  http://juliosevero.blogspot.com/2010/01/sera-necessario-um-terremoto.html

Neste artigo, Julio enfatiza que a catástrofe ocorrida no Haiti foi fruto do fato de que o Haiti é um país predominantemente dedicado ao Vodu. Vamos analisar algumas afirmações deste “amoroso” cristão:

 

Do ponto de vista da Bíblia, essas práticas são perigosas:

 

“Não ofereçam os seus filhos em sacrifício, queimando-os no altar. Não deixem que no meio do povo haja adivinhos ou pessoas que tiram sortes; não tolerem feiticeiros, nem quem faz despachos, nem os que invocam os espíritos dos mortos. O Deus Eterno detesta os que praticam essas coisas nojentas…” (Deuteronômio 18:10-12 BLH).

 

Engraçado, para respaldar sua opinião, o Julio cita um trecho da Torá. Mas a doutrina cristã afirma que Jesus aboliu a Torá! O Julio não deveria citar um livro que já não possui validade, não acha? Mas prossigamos.

 

Seria de admirar então que a mesma nação com predominantes práticas de vodu é, ao mesmo tempo, a nação mais pobre do Hemisfério Ocidental? Essa condição miserável é uma herança espiritual que antecede à colonização européia.

 

Vamos recordar a história do Haiti: O território que atualmente corresponde ao Haiti era ocupado por índios arauaques, quando, em 1492, Cristóvão Colombo chegou à ilha. Os espanhóis batizaram o lugar de Hispaniola, ocupando, primeiramente, a porção oriental do território. Escravizaram os índios que ali vivam, e até o final do século XVI, a população nativa foi reduzida em quase toda sua totalidade.

Em 1697, através da assinatura do Tratado de Ryswick envolvendo Espanha e França, a parte ocidental da ilha, onde atualmente fica o Haiti, foi cedida à França, recebendo o nome de Saint Domingue, sendo a mais importante possessão francesa nas Américas, onde ocorreu o cultivo de açúcar com a utilização de mão de obra escrava africana. Porém, os escravos africanos, influenciados pela Revolução Francesa, rebelaram-se em 1791, liderados pelo ex-escravo Toussaint L’Ouverture.

A abolição da escravidão ocorreu no ano de 1794, Toussaint foi nomeado governador vitalício em 1801. No entanto, uma expedição francesa encarregada de reconquistar a ilha prendeu Toussaint, que fora enviado para França, onde morreu em 1803.
Jean-Jacques Dessalines, antigo escravo, deu continuidade ao movimento de resistência, o resultado foi positivo, pois o país obteve sua independência no dia 1° de janeiro de 1804 e passou a se chamar Haiti, sendo a primeira República Negra das Américas e o primeiro país latino-americano a se declarar independente.

A elite, composta por mulatos, ficou insatisfeita com a nova política instalada no país, e, em 1806, tomou o poder após o assassinato de Dessalines. O Haiti teve sua administração fragmentada, o norte ficou sob domínio de Henri Christophe, o sul foi governado por Alexandre Pétion. Somente em 1820, sob o governo de Jean-Pierre Boyer, o país foi unificado.

Um dos períodos mais conturbados da história do Haiti teve início em 1957. Naquele ano, o médico François “Papa Doc” Duvalier foi eleito presidente da nação, instalando um regime ditatorial baseado na repressão militar que perseguiu muitos opositores – inclusive a Igreja Católica –, sua guarda pessoal, os tontons macoutes (bichos papões) eram os responsáveis pelos massacres.

O Papa Doc foi assassinado em 1971, no entanto, seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, assumiu a presidência do Haiti, dando continuidade às perseguições. Os protestos populares contra o regime ditatorial se intensificaram, e Baby Doc fugiu para a França em 1986, deixando no poder uma junta chefiada pelo general Henri Namphy.

Sob nova Constituição, realizaram eleições presidenciais livres em 1990, a maioria dos eleitores (67%) optou pelo padre esquerdista Jean-Bertrand Aristide. Porém, no mesmo ano, Aristides foi deposto por um novo golpe militar e a ditadura foi novamente imposta no país. A Organização das Nações Unidas (ONU) impôs sanções econômicas ao Haiti para forçar a volta de Aristides. Somente em 1994, Aristide retornou ao cargo de presidente do Haiti.

Entretanto, os problemas no Haiti persistiram, fazendo com que Aristides fugisse para a África em fevereiro de 2004 e, atualmente, o país sofre intervenção internacional pela ONU.

Além de todos esses entraves políticos, a população haitiana enfrenta vários problemas de ordem socioeconômica. O Haiti é o país economicamente mais pobre das Américas, cerca de 60% da população é subnutrida e mais da metade vive com menos de 1 dólar por dia.
Em janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7,0 na escala Richter atingiu o país, provocando uma série de feridos, desabrigados e mortes. Estima-se que mais de 120 mil pessoas morreram em consequência desse terremoto.

Muitos sabem que a pobreza que existe hoje no Haiti, é resultado das várias explorações sofridas por este país ao longo de sua história. Os principais países exploradores do Haiti foram a Espanha e a França. Em 1978, a constituição espanhola aboliu o Catolicismo Romano como religião oficial. Já a religião oficial da França, sempre foi o Catolicismo.

Ou seja, foram os cristãos que mais uma vez demonstraram o “amor” de Cristo, subjugando e escravizando povos. Os culpados pela miséria no Haiti são os países cristãos exploradores e racistas!

 

Contudo, é preciso deixar claro que as maldições sobre eles não são por serem negros, mas por causa de predominantes práticas religiosas. Quando essas práticas de maldição são renunciadas, há mudança real. De acordo com a Bíblia, quem está em Cristo é nova criatura, seja branco, negro, amarelo ou azul. Onde há negros salvos, libertos e transformados pelo sangue de Jesus, não há as maldições costumeiras do vodu e o candomblé. Essa é uma realidade diferente e bela, que o Haiti e seu cônsul de São Paulo desconhecem. O que eles conhecem é a realidade de destruição do vodu.

...

E mesmo assim o Brasil, sob o governo Lula, quer a promoção e a proteção dessas religiões, inclusive nas escolas, como “cultura”. É com muita soberba que o governo teima nesse rumo — contrariando a cultura majoritariamente católica do Brasil.

 

Neste artigo, o sr. Julio faz questão de ressaltar que toda a desgraça existente no Haiti é o produto da religião oficial daquele país: o Vodu. Os cristãos têm certas maneiras de pensar que me são muito interessantes. Se Deus julgou o Haiti por causa de sua religião, então todos os países que possuíssem religiões contrárias à vontade de Deus deveriam sofrer coisas semelhantes. A China, que é um país quase que declaradamente ateu, é o que mais cresce no mundo! A religião oficial da China varia entre crenças populares e o ateísmo. Lembre-se: A China é um país comunista e como todo país comunista, o ateísmo é muito bem tolerado.

Seria de se esperar que Deus castigasse a China da mesma maneira que castigou o Haiti. Outra coisa, é que se o terremoto no Haiti foi um julgamento divino sobre todos os feiticeiros e praticantes de macumbaria, logo os poucos cristãos daquele país deveriam ser protegidos daquela destruição. Mas não foi isso que aconteceu. Veja estes três vídeos:

 

http://www.youtube.com/watch?v=WJa7xy7mw1k

http://www.youtube.com/watch?v=zz7z_KhKin0

http://www.youtube.com/watch?v=vCEabzgaDE8

 

Também aqui no Brasil, deveria haver um grande julgamento, mais precisamente na Bahia, pois lá é o centro brasileiro do Candomblé que o sr. Julio tanto abomina. A Bahia deveria sair do mapa, não sr Julio?

Em um dos vídeos acima, podemos ver que o terremoto no Haiti também atingiu  cristãos!! Ora, ou o terremoto foi um juízo de Deus sobre os ímpios ou foi uma catástrofe natural que normalmente afeta justos e injustos; ricos e pobres; escravos e livres!

É claro que Deus tem em sua soberania, o controle de tudo. Mas para dizer que o terremoto foi um juízo de Deus, seria preciso que o próprio Deus dos cristãos desse livramento a TODOS os cristãos! E não somente a alguns. É muito fácil falar mal das pessoas e das religiões das pessoas. O difícil é ouvir críticas e a verdade de que o cristianismo é fraco e está em falência moral e espiritual. Normalmente quem gosta muito de criticar os outros, não tem tolerância para ouvir críticas.

O que eu acho pior, é que muitos cristãos pensam da mesma maneira que o Julio Severo. Podemos ver isso, nos comentários existentes no próprio site dele. Eu mesmo, encontrei um colega meu no centro de minha cidade, que me disse a mesma coisa: “o povo haitiano é macumbeiro, né rapaz? Por isso esse duro juízo de Deus contra eles...” Na mesma hora eu falei: “Bom, se pensarmos assim, o que diremos então do templo da igreja Renascer em Cristo que desabou em São Paulo? Isso foi um juízo de Deus também, não”?

Eu me referi ao acidente que aconteceu em Janeiro de 2009 em Cambuci, Zona Sul de São Paulo, quando um templo da igreja Renascer em Cristo desabou ferindo várias pessoas e matando sete. Onde está a lógica então? O desabamento foi um juízo de Deus? Nenhum crente concorda com isso. Na época, nem se cogitou a hipótese do acidente ser um castigo de Deus! Mas agora, um país pobre e miserável sofre um terremoto e pelo simples fato dele não ser um país cristão, é rotulado como amaldiçoado por Deus! Ninguém leva em conta a questão geológica do terreno onde o Haiti está localizado. Pobres haitianos.

Mas esta falta de amor é bem característica do cristianismo, religião onde gastei 28 anos de minha vida e sei bem como as coisas funcionam. Infelimente ainda existe o espírito de inquisição no coração destes pobres cristãos, que de Cristo mesmo só herdaram o nome.

Em vez de se sentar na frente de um computador e escrever abobrinhas sobre pessoas que estão sofrendo, que tal ajudá-las, sr, Julio? Talvez, se o sr. conclamar as igrejas evangélicas a gastarem um pouco de dinheiro (destinado a construir templos suntuosos) no auxílio aos adeptos da feitiçaria, vocês estejam cumprindo o mandamento do líder de vocês, que disse: Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo”? (Mt. 5:46). Que tal, hein?